sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

***Quando um homem quiser***

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher



Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Cá estamos nós outra vez...

olá
sempre apanhaste o tal comboio?
eu já perdi dois ou três
entre o ócioo e as esquinas
ganhei o vício da estrada
neste outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez

conheço a tua cara
mas não sei o teu nome
escrevo já aqui
nao sei o quê arroba ponto com
eu vou-te reencontrar
noutro bar de estação
ou talvez quando perder mais um avião
o barco vai de saida
tu estás tão bronzeada
é tão bom ver-te assim
ardendo tão queimada

eu quero reencontrar-te
noutra esquina qualquer
sem saber o teu nome
se ainda és mulher
quero reconhecer-te
e beber um café
dizer-te de onde venho
e perguntar-te porquê
sorrir-te cá do fundo
e subir os degraus
eu quero dar-te um beijo
a cinquenta e tal graus

sempre apanhaste o tal comboio
eu já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada
neste outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez
cá estamos nós outra vez...

Jorge Palma

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Borboleta




http://www.youtube.com/watch?v=ap5_NFBJ0fU

Sara Tavares

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

No teu poema

"No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
De um so destino a embarcar
O cais das novas nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro."

interpretação de Carlos do Carmo, letra e música de José Luis Tinoco

http://www.youtube.com/watch?v=YqybC9jqxjA&feature=related

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Aqui tão perto de ti

"Perdida nas janelas
A alma
Olho as cidades
Sem tempo
Cenários de vidas imaginadas
Distante do trabalho intenso
Mundos no tempo imaginado
Só eu o sei
Perdidos a entrada do labirinto

No meio da vastidão,
A poesia
De um dia a mais a viver
Janelas da alma
Sol do meio dia
Riquezas de quem não tem o que fazer
Cenários de vidas imaginadas
Festas de luz ao amanhecer

E se o amor
Bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz
Hoje, amanhã e depois

E se o amor
Bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz
Aqui tao perto de ti

No meio da vastidão,
A poesia
De um dia a mais a viver
Janelas da alma
Sol do meio dia
Riquezas de quem nao tem o que fazer
Cenários de vidas imaginadas
Festas de luz ao amanhecer

E se o amor
Bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz
Hoje, amanhã e depois

E se o amor
Bates as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz
Aqui tao perto de ti"

http://www.youtube.com/watch?v=5GsBwQgtRUg&feature=related

Donna Maria

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Bichos

(...) "entregava a pobre ao dono, tal como a encontrava- viva ou morta. Nunca um gesto sequer de piedade. Disso peseva-lhe agora a consciência. Se estavam de ponta-de-asa, as desgraçadas fugiam, gemiam, quase tinham voz de gente a pedir compaixão. Nem a alma lhe bolia. A esse respeito, fora sempre surdo e cego. Muitas vezes pensava s não seria por essa razão que lhe acontecera a desgraça (...). Ninguém as faz que as não pague..."
Miguel Torga, Bichos

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

operário em construção

"Mas ele desconhecia esse fato extraordinário: que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. De forma que, certo dia à mesa, ao cortar o pão o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela mesa– Garrafa, prato, facão – era ele quem os fazia ele, um humilde operário, um operário em construção. Olhou em torno: gamela banco, enxerga, caldeirão vidro, parede, janela casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia era ele quem o fazia ele, um humilde operário um operário que sabia exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento não sabereis nunca o quanto aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara um mundo novo nascia de que sequer suspeitava.
O operário emocionado olhou sua própria mão sua rude mão de operário de operário em construção e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção cresceu também o operário. Cresceu em alto e profundo em largo e no coração e como tudo que cresce ele não cresceu em vão."
Vinícius de Moraes